
eu sei que a foto é estourada e não está muito boa. a escolha é pelo que ela ilustra
Não tenho certeza da idade dela. Eu costumava pensar que encontrei ela (portanto, que ela nasceu) aos meus 12 anos de idade, então dizia que ela estava com 18 anos de idade.Mas eu não tenho muita certeza disto. Eu esperava que a qualquer momento eu fosse acordar e dar falta dela e do meu carro na garagem porque é o que as pessoas de 18 anos fazem. Não deu tempo dela fazer isto. Mas o importante é que sei que ela viu o impeachment do Collor e o fusquinha do Itamar. Viu o Brasil ser tetra. Viu eu comprar um videogame no lugar de dar entrada em um carro, me arrepender e ainda ter o videogame quebrado. Viu eu aprender a dirigir, viu eu entrar na faculdade e sair dela. Viu eu entrar e sair de depressão. Viu todas as minhas namoradas. A Sophia, a cadela gente fina, viu tudo.
A Sophia, a cadela gente fina, pelo que eu me lembro era o presente de dia das Mães da minha mãe. E no começo deu muita briga, porque já tinhamos um outro cachorro que não foi muito com a cara dela (na verdade ele não ia com a cara de absolutamente ninguém).
E ai que a Sophia dominava a casa, eu dormindo no chão para a Sophia, a cadela gente fina, dormir na minha cama escondido da minha mãe, eu dormindo no chão para a Sophia, a cadela gente fina, dormir na minha cama com o consentimento da minha mãe e, afinal, todos dormindo no chão.
A Sophia era esse tipo de cachorro sem noção. No sentido da pureza mesmo. Armava estas cenas esquisitas como a da foto e fazia esta cara aí de isso aqui é normal, você que não é, não sei do que você ta rindo. Ou sentar numa escada com a bunda num degrau e as patas da frente no nível do piso. Ou deitar na sua cama toda atravessada de um jeito que você mesmo não caberia nem se esforçasse muito. Vocês entenderam. Mas acho que, de tudo, o que a gente mais gostava da Sophia, a cadela gente fina, era o rabo dela. Cada vez que ela balançava o rabinho para os lados, a gente balançava inteiro. Nós já tínhamos outra cachorra, mas ela tinha o rabinho cortado. A Sophia era assim, com rabo. Se eu pudesse pensar em alguma coisa para chamar de alegria que contagia, com certeza esta coisa seria o rabinho da Sophia.
Eu tive diversos outros bichos. Antes da Sophia, a cadela gente fina, já tive tartaruga, peixinho, gatos e uma outra cadela. Ainda tenho outros no estoque lá em casa. Mas desse pessoal todo, ninguém eu gostei tanto quanto ela. Eu sempre soube que ficaria muito triste quando ela se fosse, mas é o tipo de coisa que a gente nunca sabe o suficiente até acontecer. De vez em quando chego em casa e ainda olho pros cantinhos onde ela costumava ficar mais depois que ficou velhinha. O céu dos cachorros deve estar em festa até hoje. Sorte do céu, azar da família Clay, vocês sabem como funcionam os ciclos.
Todo mundo que tem bicho fica com aquela viadagem de dizer "é a minha filhinha". Minha mãe gostava de dizer que ela era a mãe da Sophia e que eu era o irmão.Hoje fazem dois anos que ela se foi, não sou do tipo de fazer posts desse tipo, mas a Sophia a cadelinha gente fina merece.
E você aí não pode me condenar em pensar num céu de cachorros como uma criança faria: é o meu cachorro de infância, desde os meus 12 anos de idade. A Sophia, a cadela gente fina, viu tudo.

